Tornar-se voluntário é uma opção de cunho eminentemente pessoal. Quando alguém decide dedicar parte de seu tempo a uma atividade sem remuneração, o faz porque acredita que ações individuais como a sua contribuem para transformar a realidade. O cidadão segue um impulso, propõe-se a canalizar sua experiência pessoal e seu conhecimento em prol de uma causa solidária. É uma vocação, uma missão. E resulta em uma gratificação intangível, íntima.

Desde que os temas ligados à responsabilidade social e à sustentabilidade ganharam mais relevância na agenda empresarial, o chamado voluntariado corporativo passou a ser propalado como uma das mais eficazes frentes de engajamento de funcionários nas causas defendidas pelas empresas.

É louvável qualquer iniciativa empresarial no sentido de fomentar o debate e a reflexão entre funcionários, clientes e fornecedores, sobre formas de se combater a desigualdade social. Ao assumir uma causa assim, e disseminar a bandeira do voluntariado, a empresa atua como catalisadora e inspiradora de ações que visem a transformação da sociedade.

O funcionário voluntário provavelmente perceberá essa tomada de posição não como um ato benevolente, mas como uma demonstração concreta de que a organização está consciente de seu papel social. De que a empresa sabe que também possui uma parcela (maior ou menor) de responsabilidade pelo que ocorre em seu entorno.

Nesse sentido, a adoção de uma sólida política corporativa de incentivo ao voluntariado é uma prova de que a empresa está disposta a encarar esses desafios.

Clima organizacional

Além disso, um programa estruturado de apoio ao voluntariado pode contribuir substancialmente para a melhora do clima organizacional, pode aumentar a sensação de pertencimento dos funcionários e, até, proporcionar um maior engajamento do público interno em outras causas defendidas pela empresa – desde que estejam alinhadas aos seus valores e crenças.

Mas para que isto ocorra, faz-se necessário que a empresa efetivamente acredite na causa do voluntariado e a assuma com convicção. O princípio essencial de uma relação saudável entre funcionário e empregador é a confiança, baseada na ética. O funcionário não pode jamais questionar as intenções da empresa; não pode desconfiar que um programa de cidadania corporativa seja apenas uma peça de marketing.

A melhor forma de a empresa provar seu engajamento é também impondo-se um certo nível de doação.

Aqui, não bastam somente as boas intenções.

Não bastam as campanhas e peças de comunicação interna. Tampouco adiantam “plataformas” digitais, nas quais aqueles funcionários que já são voluntários possam criar “blogs” e compartilhar suas experiências pessoais com os colegas de trabalho.

A melhor demonstração de uma empresa para engajar funcionários na causa voluntária é provar que ela própria, enquanto ente jurídico, também é capaz de fazer a sua “doação”.

Da mesma forma que as pessoas doam parte de seu tempo livre ao trabalho voluntário, cabe às empresas abrir mão de parte do tempo produtivo (e remunerado) de seus funcionários em favor dessa causa. Ou seja, para que um programa corporativo tenha legitimidade, ele deve pressupor que a empresa não apenas permita como estimule que seus funcionários dediquem um determinado tempo de seu trabalho ao voluntariado.

Uma postura empresarial como esta implica, na prática, em diminuição da produção e, eventualmente, em impacto na receita. Mas por outro lado, é um excepcional motivador dos funcionários: pois demonstra que a empresa está fazendo a sua parte.

Quanto mais um programa de voluntariado for estruturado, selecionando opções de entidades e de projetos sociais nos quais os funcionários podem atuar, e estabelecendo escalas de dispensa para cada setor ou departamento (visando minimizar o impacto da falta de alguns deles), mais satisfeitos ficarão os funcionários com a dedicação ao voluntariado.

Vale ressaltar que este engajamento da empresa não invalida ações pontuais, como eventos do tipo “Dia do Voluntariado”. Essas ações são uma forma bastante eficaz de mobilização, mas muitas vezes não geram comprometimento no longo prazo.

Infelizmente, quão maior for a organização, mais difícil será essa tomada de decisão pelo apoio ao voluntariado. Pois os impactos operacionais e financeiros dessa opção crescem em proporção geométrica conforme cresce o porte da empresa.

Mas por outro lado, quando a empresa assume essa postura, isso ganha um significado simbólico. É a demonstração de uma vontade política corporativa. É a prova de que a empresa reconhece seu papel social e assume suas responsabilidades perante a sociedade.

Afinal de contas, não existem empresas bem-sucedidas em uma sociedade carente.

Por Renato Delmanto renato.delmanto@vpar.com.br

Jornalista, formado pela PUC-SP. Possui mais de 20 anos de experiência na mídia impressa (Veja, Folha de S.Paulo e Jornal da Tarde), televisão (Cultura e Band) e internet (Editora Globo e AOL). Trabalhou ainda na área de pesquisa de mercado (Ibope Inteligência). Desde 2005, especializou-se em comunicação corporativa, com experiência nas empresas CPFL Energia e Máquina da Notícia. Atualmente, é Gerente Corporativo de Relações com a Mídia do Grupo Votorantim. Na área acadêmica, é professor do Curso de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero.

Fonte: Aberj